Sacerdote, torna-te o que tu és!

“E um dia, sentiu o amor infinito transbordar de seu coração, querendo criar um ser que pudesse continuar sua obra e atender a todas as necessidades do homem, um ser que pudesse ajudar esse homem, sustentá-lo, esclarecê-lo, aproximá-lo de Deus, criou o sacerdote!” (Madre Luiza Margarida). Com as palavras de madre Luiza, temos diante de nossos olhos, revelada com uma simplicidade mística, própria dos amantes de Jesus, a realidade sublime da vocação sacerdotal. E talvez uma das respostas mais claras acerca daquilo que seria a origem da vida sacerdotal.

O sacerdote é o prolongador da missão de Jesus, unido de tal forma a este mistério que, pela ordenação sacerdotal, participa do múnus de Cristo Cabeça. Dotou este ser de um poder que excede em grandeza os próprios anjos a ponto de o grande São João Maria Vianney dizer: “Se virdes um anjo e um sacerdote, cumprimentai primeiro o sacerdote”. Oh, quanta grandeza se esconde por detrás da fragilidade de um homem. Sendo só homem, pode ordenar a Deus e Ele lhe obedece.

            Na celebração da Eucaristia, no momento da epiclese, o sacerdote diz: “Enviai o vosso Espírito para que estas oferendas se tornem o Corpo e o Sangue do Senhor.” E assim se faz! Na celebração do Sacramento da reconciliação, o sacerdote pronuncia a absolvição dizendo: “Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.” E assim se faz. Quão grande é esse mistério de amor!

            Dotado do múnus próprio de Jesus, o sacerdote deve exercer com fidelidade o ensinar. Não ocorra jamais que as ovelhas pereçam por falta de conhecimento (Cf. Os 4,6). Fiel à santa doutrina, o sacerdote ilumina o mundo de trevas com a luz da fé. Sem ambiguidade e sem sombra de dúvidas, anuncia Cristo Jesus, Caminho, Verdade e Vida (Cf. Jo 14,6).

            Como pessoa de Cristo, o sacerdote deve assumir também a sua tarefa de santificar. Esta santificação ocorre dentro de um processo cujos meios são os sacramentos e os sacramentais. O sacerdote absolve, celebra, consola, sacrifica, sacrificando-se. Por isso, a santidade do sacerdote é como o galardão visível aos homens. Ninguém pode acender uma lâmpada para colocá-la debaixo da vasilha (cf. Lc 8,16-18).

            O sacerdote também é incumbido de apascentar o rebanho de Cristo Jesus a ele confiado. Aquele que tendo aprendido de Jesus, o Bom Pastor, é capaz de deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura daquela que se perdeu. Onde estaria a vantagem de tudo isto? Na certeza de que há mais alegria por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão (cf. Lc 15,7).

            O sacerdote, por sua vez, aprendeu a lógica própria de Jesus. Aliás, deve ser em tudo a Ele semelhante. Deve viver a vida própria de Jesus! O sacerdote é um outro Cristo! Compreendemos, pois, que assim como Jesus, o sacerdote deve se tornar uma vítima. Ele não simplesmente apresenta a vítima para o sacrifício e a imola, é antes também ele, uma vítima. Vítima de um amor que o atraiu. Sacrificar e sacrificar-se, assim mesmo deve ser o resumo da vida sacerdotal. O sacerdote, como nenhum outro homem neste mundo, deve trazer em si as marcas de Cristo Jesus (cf.Gal 6,17).

            Em resumo, o sacerdote se apresenta como uma alma ferida, cuja descoberta se equipara ao grande místico João da Cruz: “Quem poderá curar-me?… Por que, pois, hás chagado este meu coração, o não saraste?… E, já que no hás roubado, por que assim o deixaste e não tomas o roubo que roubastes?”.
           
            Embora sendo um homem revestido de fragilidades, o sacerdote tramita entre o céu e a terra. Tendo os pés fincados no chão do sofrimento dos homens, reconhece que seu coração só encontra a paz em Deus. As palavras do cântico dos cânticos “eu sou do Meu Amado e o meu Amado é meu” (cf. Ct 6,3) devem se aplicar de forma estrita à vida do sacerdote, um homem de coração indiviso que encontra suas delícias no esposo de sua alma: Cristo Jesus.

            Confiemos todos os sacerdotes à doce e sempre Virgem Maria, invocada na Igreja como Mãe dos sacerdotes, revelou que os sacerdotes são seus filhos prediletos. Que ela os ensine a viver como escolhidos. O desejo do nosso coração é apenas um: Sacerdote, torna-te o que tu és!

Pe. Cristiano Aparecido de Sousa
Sacerdote na Diocese de Guarulhos 

Referências bibliográficas:

CLARET DE LA TOUCHE, Madre Luisa Margarida. O sagrado Coração e o sacerdócio. (instituto Missionário dos Servos da Igreja). Diocese de Rio Preto. SP.

Cf. Decreto Presbyterorun Ordinis. Concílio Vaticano II. (www.vatican.va)

Oração Eucaristica II.

http://www.nicoladavid.com/literatura/so-joo-da-cruz/cristalina-fonte.

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