“Na plenitude do tempo, um anjo de luz desceu do grande trono de luz a uma virgem prostrada em oração para perguntar-lhe se estava disposta a dar a Deus uma natureza humana” ¹ – narrou o admirável servo de Deus, Fulton Sheen.
Hoje celebramos este sublime dia, o dia da Anunciação do Senhor à Maria por meio do anjo Gabriel. Há um belíssimo mistério neste ato que Sheen narra: o fato de colocar em Maria a predominância da escolha. Deus escolheu Maria para ser a Mãe de seu Filho Amado, porém não lhe tirou a liberdade para dar seu sim a Ele.
Na anunciação inicia-se a “plenitude dos tempos” (cf. Gl 4,4), isto é, o cumprimento das promessas e das preparações. Maria, então, é convidada a conceber Aquele em quem habitará “corporalmente a plenitude da divindade” (cf. Cl 2,9).
A Igreja ensina que o Pai das Misericórdias quis que a Encarnação fosse precedida pela aceitação daquela que era predestinada a ser Mãe de seu Filho para que, assim como a mulher contribuiu para a morte, uma mulher também contribuísse para a vida.²
Em uma famosa obra do tempo medieval chamada Legenda Dourada³ nos diz que a Anunciação do Senhor é assim chamada porque, no dia agora comemorado, um anjo anunciou a vinda do Filho de Deus na carne. Assim, por três razões convinha que a encarnação do Filho de Deus fosse precedida por um anúncio, que foi feito pelo anjo:
1) Para que a ordem da reparação correspondesse à ordem da queda. Assim como o diabo tentou a mulher para levá-la à dúvida, da dúvida ao consentimento, e do consentimento à queda, o anjo anunciou à Virgem para estimular sua fé e levá-la da fé ao consentimento e do consentimento à concepção do Filho de Deus.
2) Por causa do ministério do anjo, porque sendo o anjo ministro e escravo do Altíssimo, e tendo a Bem-aventurada Virgem sido escolhida para mãe de Deus, era sumamente conveniente que este ministro servisse à Senhora, já que ela carregaria em si o Salvador.
3) Para reparar a queda do anjo. Se a Encarnação não teve como único objetivo reparar a queda do homem, mas também reparar a ruína do anjo decaído, os anjos não deveriam ser dela excluídos. Como a mulher não está excluída do conhecimento do mistério da Encarnação e da Ressurreição, o mesmo deveria ser do conhecimento do mensageiro angélico. Por isso, Deus anunciou ambos os mistérios à mulher por intermédio de um anjo: a Encarnação à Virgem Maria, e a Ressurreição à Maria Madalena.

Raniero Cantalamessa também nos ensina que o nascimento de uma criança não é o início absoluto; é antes a sequência, ou melhor, a conclusão de um evento. Antes de sua “vinda à luz” há sua “vinda no ser”, que se dá no instante íntimo e sagrado de sua concepção. Assim acontece com Cristo: Ele é a manifestação de um mistério muito mais profundo acontecido antes do seio de Maria, o mistério da Encarnação e Anunciação do Verbo. Um mistério tão grande que envolve toda a Trindade: o Pai, mediante seu poder que é o Espírito Santo, gera, novamente, no tempo e na carne, seu Filho. 4
No momento em que Maria pronuncia seu SIM e seu Fiat (faça-se), aconteceu algo maior do que o Fiat Lux (faça-se a luz) da criação, pois a luz que agora se fazia não era o sol, mas o Filho de Deus em carne.
Há algo de interessante na concepção de Jesus neste momento da anunciação: Ora, nem sempre uma criança é fruto de um desejo ou de uma vontade certa. Outras são até desejadas, porém somente após a concepção e o desenvolvimento da criança é que os pais conseguirão saber se é menino ou menina. O amor de mãe e de pai vai se desenvolvendo com a criança. Com Maria foi diferente! Na anunciação, o Filho não foi aceito de nenhum modo imprevisto; o Filho foi desejado. Houve, portanto, a colaboração entre uma mulher e o Espírito do Amor Divino. Outras mães se tornaram conscientes da maternidade por meio das mudanças físicas por que passaram; Maria se tornou consciente por meio de uma mudança espiritual realizada pelo Espírito Santo de Deus. Ela provavelmente recebeu um êxtase espiritual muito maior do que o que foi dado a qualquer homem e mulher em seu ato de amor sexual unificante. 5
Assim como a queda foi um ato livre, também a Redenção havia de ser livre. O que se chama de Anunciação era, na verdade, Deus pedindo o livre consentimento de uma criatura para ajudá-lo a se incorporar na humanidade. 6
Ora, dessa forma, Maria não deve ser vista como uma mulher qualquer. Ao contrário! Maria é cooperadora na obra da salvação e totalmente livre diante de Deus. Ela, escolhida para ser a Virgem Mãe de Cristo, é saudada com a mesma convocação com que Deus faz à Mãe Jerusalém, cujos filhos fiéis se regozijarão na era messiânica, porque Deus escolheu habitar no meio deles (cf. Jl 2, 23-23; Sf 3, 14-17; Zc 9, 9). Esta saudação se dá à Maria exatamente porque ela é a personificação da fidelidade de Israel e a destinatária mais privilegiada das bênçãos messiânicas do Senhor.6
Somos, portanto, este povo messiânico: somos o povo que vive sob o signo cristão, filhos de Maria, espelho e imagem perfeita da Igreja. Somos filhos da Igreja e devemos, por meio da Anunciação do anjo, nos alegrar, na fidelidade, por causa da salvação que habitou e habita entre nós. Devemos, por isso mesmo, exultar de alegria porque Deus quis a colaboração de uma criatura na obra da salvação.
Portanto, com fé, rezemos:
O Anjo do Senhor anunciou a Maria.
R: e ela concebeu do Espírito Santo.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém
Eis aqui a serva do Senhor.
R: Faça-se em mim segundo a vossa palavra.
…Ave Maria…
E o Verbo se fez carne.
R: E habitou entre nós.
…Ave Maria…
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
R: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Oremos:
Derramai, ó Deus, a vossa graça em nossos corações, para que, conhecendo, pela mensagem do Anjo, a encarnação do Cristo, vosso Filho, cheguemos, por sua paixão e cruz, à glória da ressurreição pela intercessão da Virgem Maria.Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso. Amém
______________________________________________________________________________________
Angelus Domini
Ángelus Dómini nuntiávit Maríae.
R: Et concépit de Spíritu Sancto.
Ave, María, grátia plena, Dóminus tecum, benedícta tu in muliéribus, et benedictus fructus ventris tui Jesus. Sancta María, Mater Dei, ora pro nobis peccatóribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen
Ecce ancílla dómini.
R: Fiat mihi secúndum verbum tuum.
…Ave María…
Et Verbum caro factum est.
R: Et habitávit in nobis.
…Ave María…
Ora pro nobis, sancta Dei Génetrix.
R: Ut digni efficiámur prommissiónibus Christi.
Orémus.
Grátiam tuam, quaésumus, Dómine, méntibus nostri infúnde; ut qui, ángelo nuntiánte, Christi Fílii tui encarnatiónem cognóvimus, per passiónem eius et crucem, ad resurrectiónis glóriam perducámur.Per eúmdem Christum dóminum nostrum. Amen.

Sacerdote da Diocese de Guarulhos
Referências bibliográficas:
1. SHEEN, Fulton J. Vida de Cristo. Vol. 1. Rio de Janeiro: Petra, 2018. p. 25.
2. LG 56; cf. 61; CIC 484.
3. http://www.abbaye-saint-benoit.ch/voragine/index.htm
4. CANTALAMESSA, Raniero. O Verbo se fez carne. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2012. p. 240.
5. SHEEN, Fulton J. Vida de Cristo. Vol. 1. Rio de Janeiro: Petra, 2018. p. 26.
6. Ibidem, Idem.
7. HAHN, Scott; MITCH, Curtis; WALTERS, Dennis. O Evangelho de São Lucas: Cadernos de Estudo Bíblico. Campinas, SP: Ecclesiae, 2015.